Almeida é sem dúvida uma das mais importantes vilas amuralhadas. Ao contrário de muitas outras cidades que têm apenas algumas portas ou parte da muralha original, Almeida é uma vila que se pode vangloriar de ter as muralhas completas e intactas. Isso torna-a perfeita para o estudo dos problemas das cidades amuralhadas e do desenvolvimento da arquitectura das fortificações. Almeida, assim com Elvas, são dois dos melhores exemplos de preservação de cidades amuralhadas. Almeida, em particular, deve estar muito orgulhosa do que faz para conseguir a sua preservação
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As cidades amuralhadas são especiais. O simples facto de que os nossos antepassados decidiram fortificar essas cidades significa que lhes deram muita importância. As cidades fortificadas são, por isso, muito especiais. Já são muito poucas as cidades que ainda têm um sistema fortificado apesar de terem existido centenas delas.
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Isto leva-me a outro ponto importante. Hoje em dia já não se olha para um projecto de conservação como sendo uma lista de projectos de restauro de edifícios individuais. Não faz sentido conservar um edifício único sem referir à área circundante.
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Nenhuma construção pode ser considerada apenas por seu próprio mérito mesmo que desenhada pelo arquitecto mais importante. Tem de ter um contexto. Deve ser compatível com o tecido urbano da cidade. Quando se pensa numa intervenção dentro de cidades históricas, deve pensar-se na cidade como um todo.
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Repito. Uma cidade histórica não é uma colecção de edifícios importantes mas um conjunto, uma enorme intervenção humana numa área em particular, que deve ser respeitada, reflectindo os diferentes períodos de desenvolvimento. Nenhuma cidade pode estagnar num período num período em particular porque cidades desta natureza estão sempre em desenvolvimento. Tenho a certeza que os arquitectos, deste modo, concluirão que temos o direito de intervir. A minha resposta é afirmativa, temos a obrigação de preservar o que os nossos antepassados construíram mas isso não significa que não permitiremos novas construções, mas em perfeita compatibilidade com as existentes.
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O património é um activo, muitas vezes o único activo económico das cidades históricas. Temos que, doravante, olhar para a sua protecção deste ângulo. O património pode e deve ser um importante activo económico para as nossas cidades e temos de pensar na sua conservação e desenvolvimento com este facto em mente. Portanto ao discutirmos a administração das cidades históricas temos de dar importância a dois elementos, isto é, modelos económicos e, tanto quanto possível, o envolvimento da população local.
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O turismo pode e deve ser visto como um elemento positivo na preservação do património. O turismo cria problemas especialmente em cidades pequenas mas também traz benefícios económicos. Os problemas de turismo podem ser resolvidos com um sistema de gestão.
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Como já disse anteriormente, dou muita importância a um bom sistema de administração, especialmente quando esses sistemas são baseados numa vasta participação. Os Presidentes de Câmara devem tentar a maior participação possível. Nas sete cidades em que fui responsável durante vinte anos criei três Comissões de Aconselhamento nas quais havia uma grande representação da sociedade, incluindo Municipalidade, sector comercial, historiadores, projectistas, sector cultural, entre outros. Nas reuniões mensais eles discutiam formas de tirar o maior proveito dos fundos de apoio às cidades e, em particular, preparar projectos integrados que tanto no curto como no longo prazo, ajudassem as cidades a desenvolver e a preservar melhor o seu património. Este sistema não é perfeito, mas permite aos representantes uma melhor gestão das cidades. Estas comissões não olhavam só aos projectos de conservação mas também a projectos de melhoramentos do ambiente.
Ao preservar as nossas cidades, o objectivo principal é, acima de tudo, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, conseguir um desenvolvimento económico, alcançar melhores padrões de vida. Isto só pode ser conseguido através da preservação do coração urbano histórico das nossas cidades.
Autor: Ray Bondin, membro do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios), do ICCROM (Centro Internacional para o Estudo da Preservação e Restauro da Propriedade Cultural) e do CIVVIH (Comité Internacional para as Aldeias e Cidades Históricas do ICOMOS), in Revista CEAMA nº 1, extractos de comunicação apresentada em Agosto de 2007, em Almeida.
II.
(…) O caminho vai sendo percorrido, mas é o que falta fazer que sempre constitui o desafio mais interessante. É nessa parte do que nos espera, como meta para a nossa actividade, que está a motivação maior do empenho de todos os que contribuem para construir o Presente, preservando o Património para que melhor possa cumprir as funções que o Futuro reclama.
De todos esperando participação, a todos tendo em consideração, a todos outorgando e de todos requerendo o respeito que nos merece o engrandecimento da nossa Terra, vamos brevemente colocar à disposição de todos mais dois equipamentos de qualidade que nos orgulham e ampliam o percurso que encetámos: refiro-me, concretamente, à abertura ao público da Biblioteca Municipal e do Museu de História Militar, este a instalar nas Casamatas.
Este caminho também é a aventura e a responsabilidade de ser indiferente à crítica paralisadora, assumindo a responsabilidade de quem, como poder político, é mandatado para decidir e fazer as opções que contribuirão – tenho a certeza! – para a abertura do nosso Concelho ao Universo Cultural, e que deixarão marca para os vindouros. (…)
Autor: António Baptista Ribeiro, Presidente da Câmara Municipal, in Editorial da Revista CEAMA nº 3, 2009.

NOTA: Este ano, neste dia 18 de Abril, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que se comemora não apenas internacionalmente mas também em Portugal, um pouco por todo o lado em vários municípios, incluindo no Distrito da Guarda, o tópico escolhido pelo ICOMOS é: ‘Património e Ciência’.
A escolha prende-se com o objectivo de proporcionar uma oportunidade de reflexão e de reconhecimento do papel da Ciência na criação do património cultural e, ainda, de incentivar a discussão sobre o potencial contributo que a Ciência (e Tecnologia) oferece ao estudo e preservação do património.
Em jeito de contributo para essa reflexão, à falta de melhores meios de debate que o Prof. Doutor Ray refere acima, num texto publicamente acessível, que recomendamos vivamente e que por excessiva extensão não reproduzimos na íntegra, apenas no essencial e omitindo algum louvor à pessoa que lhe dirigira o convite, uma vez que essa comunicação foi feita por ocasião da sua primeira visita a Almeida sem conhecimento directo do que veio encontrar, propõe-se uma análise dessa experiência e considerações com a realidade sintetizada apresentada pelo Presidente da CMA, no Editorial de uma publicação subsequente da mesma colecção de estudos, este integralmente disponível também em imagem abaixo.
Para não condicionar o debate em qualquer direcção, abstemo-nos de destaques ou sublinhados, deixando a cada um o interesse de uma leitura bastante atenta e o arbítrio de uma reflexão que a cada um é possível.
Maria Clarinda Moreira













