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28 novembro, 2015

Não lhes perdoo!!!





Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela a que este país sofreu desde 2011.
Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.

Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.

Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha". Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.

Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância da sua capacidade reivindicativa de reação ser muito menor dos que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas. Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à provincia de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência.

Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos. Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro".

Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo".

Assisti a isto e a muito mais. Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Públuca foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as políticas que aviltavam a máquina pública.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, assisti a uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa. Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão.

Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos. E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que tristemente lhes coube titular durante este triste quadriénio.

Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo. Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem? Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar. Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus. Como não sou, deixo-lhe apenas o meu silêncio.

 Francisco Seixas da Costa

































19 junho, 2015

Tsunami econômico.



O regresso de Schlieffen


Em 1905, a Alemanha adotou o Plano Schlieffen. 
Dado que a Rússia e a França eram aliadas, para evitar uma guerra em duas frentes, Berlim atacaria primeiro Paris, num golpe fulminante (tentando repetir a vitória rápida de 1870) para se concentrar, depois e com tempo, contra a imensa Rússia. 
Entre 28 de junho e 4 de agosto de 1914, os europeus assistiram ao torneio diplomático que se sucedeu ao atentado de Serajevo. Nas distrações estivais muito poucos perceberam que era a sua sentença de morte que estava a ser traçada nos bastidores diplomáticos. 
A Sérvia estava ainda mais longe em 1914 do que a Grécia em 2015. 
A guerra poderia ter sido evitada? Claro. Bastaria que em vez de aplicar cegamente o Plano Schlieffen o Kaiser Guilherme II tivesse ousado pensar. 
Mas, como disse Keynes, a maioria dos homens prefere errar dentro das regras do que ter sucesso através da coragem de caminhos novos. 
Está a zona euro condenada a implodir? Claro que não. 
Mas, provavelmente, é isso que vai acontecer. 
O novo Plano Schlieffen chama-se Tratado Orçamental e transforma a austeridade em religião. 
A nova rigidez mental está no frívolo ADN de uma união monetária low cost, incapaz de aprender com os seus erros. 
A rigidez está na indiferença moral com os efeitos devastadores da imposição de políticas catastróficas, que se insiste em prolongar. 
Quem espera um milagre acredita que a chanceler Merkel poderá fazer melhor do que Guilherme II. Infelizmente, o colapso da Grécia será, com grande probabilidade, o início tumultuoso do fim do projecto de integração europeia iniciado depois de 1945. Um tsunami económico percorrerá destrutivamente todo o mundo. Como em 1914, ou 1939, também em 2015 o epicentro das ameaças para o equilíbrio e para a paz mundiais está aqui. Na civilizada Europa.

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
*Professor universitário


D.N. - 19/06/2015






11 maio, 2015

Perceber e amar a diferença





Sou daqueles privilegiados que deu um passo para sair do país antes que o seu primeiro-ministro o aconselhasse a fazer. Sou daqueles que abraçou a palavra emigrante como a opção, carregando o orgulho de ser português noutro(s) país(es). Sou daqueles que tenta valorizar e aplicar no dia a dia os princípios valores e sabedoria que a família me transmitiu. Desde logo o exercício de ‘perceber e amar a diferença’. Um saber genuíno dos ‘simples’ que nos ajuda a ser atentos respeitosos e respeitados.
Vem isto a propósito da recente cobertura feita pelos orgãos de comunicação do meu país sobre as comemorações dos 70 anos da vitória das tropas aliadas na 2ª Grande Guerra Mundial. Todas alinhadas pelo mesma caixa editorial – Putin mostra o seu poderio militar à boa maneira dos tempos da União Soviética e da guerra fria. 
Como sempre a Rússia é o demónio favorito de gente que muito pouco ou nada conhecerá da realidade do país.
Visitei a União Soviética em 1975, em plena era Breznev. Tinha 19 anos e representava o MDP/CDE que integrava a delegação portuguesa no Festival Internacional da Juventude que teve lugar em Baku, Azerbaijão (à altura parte da URSS e hoje estado independente). 
Antes passámos por Moscovo onde fomos recebidos com honras de heróis da liberdade, título que nenhum na comitiva tinha diga-se. O único que assim o podia reclamar era o Adriano Correia de Oliveira, com quem partilhei o quarto ao longo da estadia de 12 dias. 
Com Adriano passei a trazer no coração, a trova do vento que passa. 
Momentos inesquecíveis. Um homem tão grande em tamanho quanto em doçura. Partiu muito cedo.
No encerramento do Festival com ele cantámos a nossa Grândola Vila Morena. 
À Rússia voltei, mais tarde em 1995, já na era Yeltsin. Motivava-me o trabalho e oportunidades de negócio a desenvolver com o país. Desde então, por esta ou aquela razão o destino passou a ser Rússia até inverter os sentidos, isto é, passando a visitar Portugal. 
Assisti à ascensão de Puti (2000) e ao repor do orgulho russo bem como ao ressurgir da Rússia no panorama internacional. 
Da Rússia trago algum conhecimento adquirido. 
Fiz uma aprendizagem que mudou a minha vida. Esta é a realidade. 
Este é o país que jamais me será indiferente.
No mais sincero acto de perceber esta fantástica homenagem aos heróis da 2ª Grande Guerra, estive lá. 


Fui ao epicentro dos festejos junto dos militares que aos milhares desfilaram na Praça Vermelha e do ‘povão’ que expressava o seu obrigado. 
Muitas foram as razões me levaram a dizer estou presente. 

Destaco no entanto duas. O facto de a minha companheira querer homenagear o seu Avô paterno, militar da força aérea morto em combate em 1942 (de lembrar os 27 milhões de russos mortos na guerra equivalendo a 1 morto por cada família de 4 elementos), e pelo significado das comemorações.
As emoções sentidas ontem ficarão como um dos dias mais bonitos que vivi. 
Não vi nem nacionalismo bacoco ou patriotismo de pipocas e coca-cola. 
Vi pessoas agradecidas aos seus mortos e orgulhosas dos seus e da sua história. 
Vi crianças e jovens partilhando a festa. 
Não vi nem senti que por perto houvesse um tal de Estaline, a obrigar as pessoas a serem diferentes.
Se a questão, e voltando à caixa editorial da imprensa portuguesa, reside no facto de as pessoas trazerem a foice e o martelo nas bandeiras, ou as figuras históricas da União Soviética de então, as bandeiras do país, ou até das fotos dos seus mortos, não vejo onde reside o problema. 
Se não gostam, então terão de mudar de ares ou ‘proceder à limpeza’ de S. Petersburgo a Vladivostok de tudo isto que tanto os perturba e incomoda. Digo-vos que terão um trabalho árduo e inacabado. Se a questão é mais primária, de ignorância, traduzido no pensamento pro americano das mentes que os leva a não gostar da Rússia porque não gostam, simplesmente por isso. Não será fashion gostar dos russos. É simples então, a informação não passa de flatulência.
Mas já agora, fiz questão de ler o discurso de Putin para perceber onde se encontram as grandes ameaças ao mundo, bem como, assisti pela televisão à conferência de imprensa conjunta com Merkel, ontem em Moscovo, após colocação das flores no túmulo do soldado desconhecido. 
Das duas intervenções não a identifiquei a ameaça do que fosse. Identifiquei, isso sim, ensinamentos decorrentes do que se tem passado no mundo desde 1945 até hoje. 
Mas se a questão for o poderio militar demonstrado ao mundo e não outro conteúdo terei de acrescentar algo mais à caixa editorial. 

Em armamento militar de todo o tipo os EUA ‘ investem’ por ano mais que a China, Índia e Rússia, juntos. 
A propósito, relembro as duras e incisivas palavras de Álvaro Cunhal, quando numa das suas últimas entrevistas se referiu aos EUA, como o país mais terrorista na história do mundo. Tenho de concordar com ele. A enormidade de golpes de estado, ‘golpinhos’ e ‘golpetas´, o patrocínios de líderes facínoras um pouco por todo o planeta, a ´sponsorização´do extremismo islâmico, a invasão de países pela dita liberdade (deles), os interesses obscuros sobre a capa da democracia de tipo ocidental com assinatura de um modelo a seguir, estão à escolha é para todos os gostos, em catálogo e saldos. 
Deve ter-se a noção do que de 1945 para cá aconteceu no plano internacional. 
Deve-se chamar o nome às coisas.
Se a conclusão, retirada pelos profissionais da comunicação que pululam na malga do poder é, a Rússia tem um exército forte. Estou de acordo. Tem e deve continuar a tê-lo. Não porque entenda que deva seguir o modelo americano mas porque acho que se deve defender dele. É dos livros a intenção dos EUA e NATO em impor um líder amigo um pro americano na Rússia. É o abc da política internacional. Basta ler para perceber o que se passa à volta da fronteira russa. 
Esta americana forma de pensar que todos devemos aceitar os EUA como o bastião da democracia no mundo é parte do golpe. De democracia tem pouco e de conspiração tudo. Assinar um tratado de cooperação com os EUA significa, grosso modo, perda de independência e de pensamento próprio. É o que acontece a todos os denominados aliados dos EUA. É o que tristemente vem acontecendo a esta União Europeia de líderes no ´he’s master voice´ que procuram o melhor retrato com o patrono.
A vida é cheia de exemplos e de simples episódios. 
Vem-me sempre à memória a minha amizade com um cidadão americano que à altura comungava comigo a sua também adaptação à Rússia. O país, as gentes, a barreira da língua, culturas diferentes e tudo mais, levavam Timothy, Tim como o tratava, a vociferar cobras e lagartos sobre este país. 
Um dia, num evento em que juntos participámos, a sua postura era das mais despropositadas e até incómoda, pois estava ‘a jogar fora de casa’ chamando demasiado à atenção. Na minha forma de ser bem humorada, disse-lhe para não ser assim porque Deus o castigava obrigando-o casar como uma cidadã russa. Da gargalhada inicial ao meu comentário ao seu casamento com uma russa, demoraram 3 anos. Hoje divide a vida entre o lá e cá. Feliz como merece e com uma família grande como se orgulha. Satisfeito pela diferença que os juntou. Ao longo do tempo a vida transformou-o. Quando lhe perguntava sobre o que pensava do país, quando veio e agora, respondeu-me de forma objectiva que nenhum americano sabe o que é a Rússia se não viver no país. Bem como o inverso é verdadeiro, sendo extensivo a todos os povos.
Há história cultura e língua diferentes. 
Há riqueza humana feita na diversidade.


Desculpar-me-á o Tio Sam mas o facto de eu não frequentar o Mac Donnalds ou não beber coca-cola não quer dizer que não goste da América e dos americanos.
Não gosto de alguns americanos, de alguns portugueses, de alguns russos, de alguns alemães, e assim por diante. Não confundo a árvore com a floresta.

Podem concluir que gosto da Rússia e até que a defendo. 
Será um facto. 
Talvez porque viva cá e esteja numa realidade bem diferente da ficção jornalística.



Se calhar o meu Tio José Luís Terreiro teve alguma influência quando nos meus 14, 15, 16 anos de idade me levava aos concertos de música clássica de compositores russos, assistir ao bailado russo. 
Terei começado a gostar por aí.

António Sousa




04 maio, 2015

Quem destruiu mais postos de trabalho?



Quem é que cria mais postos de trabalho? O Bloco de Esquerda ou a Remax?

Esta pergunta foi feita por Paulo Portas, quando no Parlamento se explicava sobre os vistos gold, política de que é o principal patrocinador.
Esta frase merece ficar na memória destes anos de lixo, juntamente com o “irrevogável” do mesmo autor, e de algumas outras de Passos Coelho sobre os “piegas” versus os empreendedores, ou o “ir para além da troika”, ou a “austeridade criadora”, ou o fabuloso conceito de “justiça geracional”, ou os saltos no palco do “jovem” comissário do Impulso Jovem que nunca deve ter percebido como é que acabou a sua nobre missão de explicar a inutilidade de saber história ou sequer de estudar. Hoje tudo isto nos parece ridículo e perigoso, uma combinação sinistra,até porque tudo ainda está no activo. 
Vamos um dia olhar para estas frases, com a distanciação possível da história, e perceber melhor o retrato de um período negro da história portuguesa, em que o país foi estragado por uma mistura de ideias erradas e muita incompetência.


Voltando à frase de Portas, um daqueles soundbites de que os jornalistas muito gostam, e que substituem em Portas um pensamento, uma coerência, uma política e uma ética que não seja a sua vanglória e a sua sobrevivência. Podemos construir várias frases exactamente com o mesmo raciocínio que lhe serve de base.

Quem cria mais postos de trabalho? O CDS ou o BE? O CDS, claro, que está no Governo e participa na distribuição dos boys e girls e com muito afinco. Chama-se a “quota” do CDS. Quem cria mais postos de trabalho? O PSD ou o CDS? Terrível problema para o CDS, que só chega ao poder encostado nos votos do PSD e já fez disso modo de vida. A resposta é: o PSD, claro. Quem cria mais postos de trabalho? O CDS ou a Remax? A Remax claro, uma multinacional cujo nome Portas acabou por misturar nestas justificações, fazendo-lhe publicidade gratuita. Que se saiba, Portas ainda não vende casas na Micronésia, onde a Remax actua. Quem tem uma “marca” de maior prestígio e maior valor de mercado? Portas ou a Remax? A Remax, que ainda não é “irrevogável”.
E a pergunta das mais certas que há: quem destruiu mais postos de trabalho? Portas ou o BE? Portas ou a Remax? Resposta: Portas e o CDS. E Sócrates – dirão as vozes? Sim, é verdade, Sócrates, Passos Coelho e Portas estão bem uns para os outros. Repito de novo a pergunta que seria aquela que de imediato lhe faria, se ele a fizesse à minha frente: quem destruiu mais postos de trabalho? Portas ou o BE? Portas ou a Remax?
Aplicada aos vistos gold, a frase de Portas tem um significado unívoco: se dá dinheiro, vale tudo. Todo o resto da argumentação é paisagem – os outros também fazem, o dinheiro entra pela banca em cheque, comprar casas de luxo ajuda à nossa economia, etc., etc. Mas a essência é: se dá dinheiro, pode comprar tudo, mesmo esse intangível valor que é a residência em Portugal e depois a nacionalidade. É este sentido que torna a frase muito simbólica dos nossos dias, em que o “estado de emergência” se faz em primeiro lugar sentir no domínio da ética pública.


 Pacheco Pereira



22 março, 2015

Carta a Deus



Um dia depois da operação da mulher a um tumor que tinha alojado no cérebro, Miguel Esteves Cardoso escreve na sua crónica do jornal Público hoje um texto, que apelidou de “Carta a Deus”.



“Deus,
Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz. Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais.

De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. Quando inventaste o amor, esqueceste-Te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária.

Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo. Ajuda a Maria João, se puderes.


Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande".




13 março, 2015

Ainda tomaremos café juntos!




Um dia, um professor, diante da sua turma, sem dizer uma só palavra, pegou num frasco de vidro grande e vazio e começou a enchê-lo com bolas de golf.
 Quando não cabiam mais, ele perguntou aos alunos se achavam que o frasco estava cheio e todos responderam que sim.
O professor, então, pegou num saco de berlindes e, ao chocalhar o frasco, estes iam entrando para os buracos vazios entre as bolas.
Quando não cabiam mais, ele perguntou aos estudantes se achavam que o frasco estava cheio e voltou a ouvir a mesma resposta.
Neste ponto, o professor despejou um saco de areia para dentro do frasco. Como é óbvio, a areia ocupou todo o espaço restante do frasco.
Quando não cabia mais, ele perguntou aos alunos se achavam que o frasco estava cheio e todos responderam que sim.
Foi então que o professor agarrou em dois copos de café e os entornou lá para dentro. Agora sim, não havia mais espaço. Os alunos desataram a rir!!!
“Agora”, disse o professor enquanto as gargalhadas ainda se ouviam, “eu quero que vocês entendam que o frasco de vidro representa as nossas vidas.

As bolas de golf são as coisas mais importantes: a família, os amigos e a saúde e tudo o que vos é mais querido, de modo que se tudo o resto desaparecesse na vossa vida e só ficassem elas, a vossa vida continuava cheia!
Os berlindes são as outras coisas que preenchem a nossa vida e que também importam: o trabalho, a casa bonita, o carro novo,...
A areia representa todas as pequenas coisas que ajudam a ocupar a nossa vida.
 Mas, se tivéssemos colocado a areia em primeiro lugar no frasco, já não haveria espaço para as bolas de golf e para os berlindes.
O mesmo se passa com a nossa vida.
Se gastarmos todo o tempo e energia com as pequenas coisas, nunca vamos ter espaço para as coisas que são verdadeiramente importantes para nós.
Prestem atenção às coisas que são essenciais à vossa felicidade: brinquem com os filhos, arranjem tempo para ir ao médico, talvez  fazer um check-up, saiam para se divertir com a família e os amigos, dediquem algum tempo a vocês mesmos, procurem o conhecimento, pratiquem o vosso desporto favorito....
Tenham prioridades!
Vai haver sempre tempo para as outras coisas, mas ocupem-se das bolas de golf em primeiro lugar e, de seguida, dos berlindes. Para o resto – a areia - vai sempre haver espaço.”
Aqui, um aluno levantou-se e perguntou o que representava o café e o professor respondeu:
“Ainda bem que perguntaste, pois o café serve apenas para demonstrar que não importa quão ocupada esteja a nossa vida...sempre haverá lugar para tomar café com um amigo...”...
  

(autor desconhecido)
…vamos a uma bica????

João Neves



21 fevereiro, 2015

Só quero que penses...




Lamento profundamente a falta de solidariedade deste povo...
e tamanha hipocrisia de alguns.

Vivemos num mundo onde muitas vezes nos esquecemos do outro, num sistema de competição orientada por interesses, construindo uma moral cada vez mais egoísta. 
Desde que não chegue ao meu quintal…está tudo bem...vou para o sofá ver  “casa dos segredos” ou curtir uma musiquinha.
O interesse pessoal, no cuidado exclusivo de si mesmo, e no desamor para com todos os outros é comum.
A regra, na maioria das vezes resume-se a só aprendemos quando sofremos e só valorizamos o sofrimento do outro, quando já passamos pelo mesmo caminho.


Que moral é o destes seres humanos que levam a perder a sua dignidade, diante da busca pelos seus interesses pessoais ou até em defesa de uma qualquer sigla partidocrática?  


Cortaram o subsídio?
Cortaram o salário?
Cortaram o abono de família dos miúdos?
Reduziram as bolsas de estudo?
Aumentaram as propinas?
Está desempregado?
Fecharam a escola?
Fecharam as urgências hospitalares?
Os filhos têm que fugir para o estrangeiro?
Morre gente por decisões desumanas de quem dirije?
Morre gente por falta de medicamentos?
Há famílias sem rendimentos e com os filhos a passar fome?
Há crianças com fome?
Há gente a viver nas ruas ao relento?
Há suicídios?

Há gente que não compra os medicamentos porque não tem dinheiro?

…isso não interessa para nada…




…o que importa é que este País está melhor…apesar da vida das pessoas, dos portugueses não estar nada melhor...este é o lema de quem nos lidera e de quem os segue sem escrúpulos…


Os portugueses são apenas um instrumento para a glória da Nação pois não houve escrúpulos nenhuns quando o grande líder afirmou...em jeito de aviso...que só sairíamos  desta situação empobrecendo…ou quando aconselhou para emigrarem...

…e o Povo que prometeram defender...que se lixe…
…e as eleições que se lixem…sem qualquer tipo de humildade...

…será que a esmagadora maioria deste povo não se interrogará: E O POVO PÁ?


...se me perguntarem o que é a minha Pátria...direi...não sei...


João Neves




13 dezembro, 2014

O sucesso do ajustamento






Portugueses mais ricos ganham dez vezes mais que os mais pobres .


Portugal tornou-se nos últimos anos um país mais desigual em termos de distribuição de rendimentos e isso danifica seriamente o crescimento da economia, assinala a OCDE, num conjunto de estudos hoje divulgado.
Por exemplo, o rendimento dos 10% mais ricos é hoje dez vezes superior ao dos 10% mais pobres.

Há um “aumento de longo prazo na desigualdade de rendimentos na área da OCDE [os 34 países mais ricos]” e  assiste-se a um “crescimento nas disparidades” seja antes ou depois da Grande Recessão de (2008 a 2009), refere a organização no estudo “Tendências na desigualdade de rendimentos e o seu impacto no crescimento económico”.

Apesar da notável subida dos rendimentos das pessoas e na riqueza das nações nas décadas que precederam a Grande Recessão, a verdade é que os indicadores da desigualdade eram mais favoráveis nos anos 80.



In “As minhas leituras” - 12 de December de 2014





03 outubro, 2014

As feiras de tudo e mais alguma coisa





“... como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo. 
Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros. Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso. 
Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro. 
No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as "feiras medievais" de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley.



As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. 
O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual.



A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. 
No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o "povo".



Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. 
Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. Nem isso, passará a moda  e esquecer-se-á a doença. 

Pode ser que para o ano a moda  seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.



Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.”…




…assim escreveu José Pacheco Pereira no seu Blogue “ABRUPTO” (http://abrupto.blogspot.pt/) transcrevendo com perfeito realismo Portugal no seu melhor…

João Neves