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11 maio, 2015

Perceber e amar a diferença





Sou daqueles privilegiados que deu um passo para sair do país antes que o seu primeiro-ministro o aconselhasse a fazer. Sou daqueles que abraçou a palavra emigrante como a opção, carregando o orgulho de ser português noutro(s) país(es). Sou daqueles que tenta valorizar e aplicar no dia a dia os princípios valores e sabedoria que a família me transmitiu. Desde logo o exercício de ‘perceber e amar a diferença’. Um saber genuíno dos ‘simples’ que nos ajuda a ser atentos respeitosos e respeitados.
Vem isto a propósito da recente cobertura feita pelos orgãos de comunicação do meu país sobre as comemorações dos 70 anos da vitória das tropas aliadas na 2ª Grande Guerra Mundial. Todas alinhadas pelo mesma caixa editorial – Putin mostra o seu poderio militar à boa maneira dos tempos da União Soviética e da guerra fria. 
Como sempre a Rússia é o demónio favorito de gente que muito pouco ou nada conhecerá da realidade do país.
Visitei a União Soviética em 1975, em plena era Breznev. Tinha 19 anos e representava o MDP/CDE que integrava a delegação portuguesa no Festival Internacional da Juventude que teve lugar em Baku, Azerbaijão (à altura parte da URSS e hoje estado independente). 
Antes passámos por Moscovo onde fomos recebidos com honras de heróis da liberdade, título que nenhum na comitiva tinha diga-se. O único que assim o podia reclamar era o Adriano Correia de Oliveira, com quem partilhei o quarto ao longo da estadia de 12 dias. 
Com Adriano passei a trazer no coração, a trova do vento que passa. 
Momentos inesquecíveis. Um homem tão grande em tamanho quanto em doçura. Partiu muito cedo.
No encerramento do Festival com ele cantámos a nossa Grândola Vila Morena. 
À Rússia voltei, mais tarde em 1995, já na era Yeltsin. Motivava-me o trabalho e oportunidades de negócio a desenvolver com o país. Desde então, por esta ou aquela razão o destino passou a ser Rússia até inverter os sentidos, isto é, passando a visitar Portugal. 
Assisti à ascensão de Puti (2000) e ao repor do orgulho russo bem como ao ressurgir da Rússia no panorama internacional. 
Da Rússia trago algum conhecimento adquirido. 
Fiz uma aprendizagem que mudou a minha vida. Esta é a realidade. 
Este é o país que jamais me será indiferente.
No mais sincero acto de perceber esta fantástica homenagem aos heróis da 2ª Grande Guerra, estive lá. 


Fui ao epicentro dos festejos junto dos militares que aos milhares desfilaram na Praça Vermelha e do ‘povão’ que expressava o seu obrigado. 
Muitas foram as razões me levaram a dizer estou presente. 

Destaco no entanto duas. O facto de a minha companheira querer homenagear o seu Avô paterno, militar da força aérea morto em combate em 1942 (de lembrar os 27 milhões de russos mortos na guerra equivalendo a 1 morto por cada família de 4 elementos), e pelo significado das comemorações.
As emoções sentidas ontem ficarão como um dos dias mais bonitos que vivi. 
Não vi nem nacionalismo bacoco ou patriotismo de pipocas e coca-cola. 
Vi pessoas agradecidas aos seus mortos e orgulhosas dos seus e da sua história. 
Vi crianças e jovens partilhando a festa. 
Não vi nem senti que por perto houvesse um tal de Estaline, a obrigar as pessoas a serem diferentes.
Se a questão, e voltando à caixa editorial da imprensa portuguesa, reside no facto de as pessoas trazerem a foice e o martelo nas bandeiras, ou as figuras históricas da União Soviética de então, as bandeiras do país, ou até das fotos dos seus mortos, não vejo onde reside o problema. 
Se não gostam, então terão de mudar de ares ou ‘proceder à limpeza’ de S. Petersburgo a Vladivostok de tudo isto que tanto os perturba e incomoda. Digo-vos que terão um trabalho árduo e inacabado. Se a questão é mais primária, de ignorância, traduzido no pensamento pro americano das mentes que os leva a não gostar da Rússia porque não gostam, simplesmente por isso. Não será fashion gostar dos russos. É simples então, a informação não passa de flatulência.
Mas já agora, fiz questão de ler o discurso de Putin para perceber onde se encontram as grandes ameaças ao mundo, bem como, assisti pela televisão à conferência de imprensa conjunta com Merkel, ontem em Moscovo, após colocação das flores no túmulo do soldado desconhecido. 
Das duas intervenções não a identifiquei a ameaça do que fosse. Identifiquei, isso sim, ensinamentos decorrentes do que se tem passado no mundo desde 1945 até hoje. 
Mas se a questão for o poderio militar demonstrado ao mundo e não outro conteúdo terei de acrescentar algo mais à caixa editorial. 

Em armamento militar de todo o tipo os EUA ‘ investem’ por ano mais que a China, Índia e Rússia, juntos. 
A propósito, relembro as duras e incisivas palavras de Álvaro Cunhal, quando numa das suas últimas entrevistas se referiu aos EUA, como o país mais terrorista na história do mundo. Tenho de concordar com ele. A enormidade de golpes de estado, ‘golpinhos’ e ‘golpetas´, o patrocínios de líderes facínoras um pouco por todo o planeta, a ´sponsorização´do extremismo islâmico, a invasão de países pela dita liberdade (deles), os interesses obscuros sobre a capa da democracia de tipo ocidental com assinatura de um modelo a seguir, estão à escolha é para todos os gostos, em catálogo e saldos. 
Deve ter-se a noção do que de 1945 para cá aconteceu no plano internacional. 
Deve-se chamar o nome às coisas.
Se a conclusão, retirada pelos profissionais da comunicação que pululam na malga do poder é, a Rússia tem um exército forte. Estou de acordo. Tem e deve continuar a tê-lo. Não porque entenda que deva seguir o modelo americano mas porque acho que se deve defender dele. É dos livros a intenção dos EUA e NATO em impor um líder amigo um pro americano na Rússia. É o abc da política internacional. Basta ler para perceber o que se passa à volta da fronteira russa. 
Esta americana forma de pensar que todos devemos aceitar os EUA como o bastião da democracia no mundo é parte do golpe. De democracia tem pouco e de conspiração tudo. Assinar um tratado de cooperação com os EUA significa, grosso modo, perda de independência e de pensamento próprio. É o que acontece a todos os denominados aliados dos EUA. É o que tristemente vem acontecendo a esta União Europeia de líderes no ´he’s master voice´ que procuram o melhor retrato com o patrono.
A vida é cheia de exemplos e de simples episódios. 
Vem-me sempre à memória a minha amizade com um cidadão americano que à altura comungava comigo a sua também adaptação à Rússia. O país, as gentes, a barreira da língua, culturas diferentes e tudo mais, levavam Timothy, Tim como o tratava, a vociferar cobras e lagartos sobre este país. 
Um dia, num evento em que juntos participámos, a sua postura era das mais despropositadas e até incómoda, pois estava ‘a jogar fora de casa’ chamando demasiado à atenção. Na minha forma de ser bem humorada, disse-lhe para não ser assim porque Deus o castigava obrigando-o casar como uma cidadã russa. Da gargalhada inicial ao meu comentário ao seu casamento com uma russa, demoraram 3 anos. Hoje divide a vida entre o lá e cá. Feliz como merece e com uma família grande como se orgulha. Satisfeito pela diferença que os juntou. Ao longo do tempo a vida transformou-o. Quando lhe perguntava sobre o que pensava do país, quando veio e agora, respondeu-me de forma objectiva que nenhum americano sabe o que é a Rússia se não viver no país. Bem como o inverso é verdadeiro, sendo extensivo a todos os povos.
Há história cultura e língua diferentes. 
Há riqueza humana feita na diversidade.


Desculpar-me-á o Tio Sam mas o facto de eu não frequentar o Mac Donnalds ou não beber coca-cola não quer dizer que não goste da América e dos americanos.
Não gosto de alguns americanos, de alguns portugueses, de alguns russos, de alguns alemães, e assim por diante. Não confundo a árvore com a floresta.

Podem concluir que gosto da Rússia e até que a defendo. 
Será um facto. 
Talvez porque viva cá e esteja numa realidade bem diferente da ficção jornalística.



Se calhar o meu Tio José Luís Terreiro teve alguma influência quando nos meus 14, 15, 16 anos de idade me levava aos concertos de música clássica de compositores russos, assistir ao bailado russo. 
Terei começado a gostar por aí.

António Sousa




04 outubro, 2014

Componente estranho e malicioso.





Nuno Crato foi ao Parlamento a 18 de Setembro reconhecer que os serviços do Ministério da Educação tinham errado na colocação de professores contratados nas cerca de 300 escolas com contratos de autonomia e TEIP (territórios educativos de intervenção prioritária). 
Pediu desculpa ao país, aos pais e aos docentes e deixou uma garantia: NENHUM DOS PROFESSORES COLOCADOS IRIA SER PREJUDICADO.
Esta sexta-feira, 03 de Outubro e a MEIO DA TARDE, ficou a saber-se que o Ministério deu ordem aos diretores para anularem as contratações e que 150 DOCENTES PERDERAM O LUGAR.

No dia em que pediu desculpas no Parlamento pelo erro na fórmula usada pelo Ministério para ordenar os professores candidatos à Bolsa de Contratação de Escola, o ministro da Educação prometeu que o problema se resolveria na semana seguinte.
Não só não o fez como despediu professores que já estavam contratados e até com algumas semanas de trabalho.
Ora a atitude deste Senhor, de seu nome Crato, não lhe permite socorrer-se da tal "Troika" e muito menos com a famigerada austeridade para se justificar. 
Por outro lado, não PODEMOS apelar à lealdade partidária de qualquer um de nós, sob pena de não estarmos a ser honestos com a nossa consciência, para tentarmos desculpar o tal ministro da (má) educação.

Este ultimo acto desta personagem não só significa que Crato é incompetente e  
incapaz como é irresponsável e até desumano.

Não pode ser poder.

Haja quem o afaste rapidamente ou que, e finalmente, o povo acorde e o faça de forma eficaz.


João Neves

P.S. - Não sou Professor e só tenho um filho a estudar,  mas no ensino Universitário.




19 fevereiro, 2014

Carta ao pai...até Abril, Fernando...



Ontem, o meu pai foi-se embora.

Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.
A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país.
Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.
Ontem, quando me deitei, senti-me triste.
E, ao mesmo tempo, senti-me feliz.
Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência).
Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar. Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo.
Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida.
Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros. Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós - e como todos os autores destes singelos insultos -, fez aquilo que lhe restava fazer. Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje - Carminho, Carlos do Carmo, Marisa, são incontáveis - fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música.
Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece.

Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.
Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela.

A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país.
A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias.
A terceira foi a esperança.

E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos.

Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar.
Não queremos mudar.
Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui - e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte - pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora.
Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios.
Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito.

Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

João Tordo
19.02.2014

 
 
 
 

25 novembro, 2013

Está a acontecer


Está a acontecer.
Aquilo que nem nos passava pela cabeça que pudesse acontecer está mesmo a acontecer. Está a acontecer cada vez com mais regularidade as farmácias não terem os medicamentos de que precisamos.
Está a acontecer que nos hospitais há racionamento de fármacos e uma utilização cada vez mais limitada dos equipamentos.
Está a acontecer que muitos produtos que comprávamos nos supermercados desapareceram e já não se encontram em nenhuma prateleira.
Está a acontecer que a reparação de um carro, que necessita de um farol ou de uma peça, tem agora de esperar uma ou duas semanas porque o material tem de ser importado do exterior.
Está a acontecer que as estradas e as ruas abrem buracos com regularidade, que ou ficam assim durante longos meses ou são reparados de forma atamancada, voltando rapidamente a reabrir.
Está a acontecer que a iluminação pública é mais reduzida, que mais e mais lojas dos centros comerciais são entaipadas e desaparecem misteriosamente.
Está a acontecer que nas livrarias há menos títulos novos e que as lojas de música se volatilizaram completamente.
Está a acontecer que nos bares e restaurantes há agora vagas com fartura, que os cinemas funcionam a meio gás, que os teatros vivem no terror da falta de público.
Está tudo isto a acontecer e nós, como o sapo colocado em água fria que vai aquecendo lentamente até ferver, não vemos o perigo, vamos aceitando resignados este lento mas inexorável definhar da nossa vida coletiva e do Estado social, com uma infinita tristeza e uma funda turbação.
 

Está a acontecer e não poderia ser de outro modo.
Está a acontecer porque esta política cega de austeridade está a liquidar a classe média, conduzindo-a a uma crescente pauperização, de onde não regressará durante décadas.
Está a acontecer porque, nos últimos quase 40 anos, foi esta classe média que alimentou cinemas, teatros, espetáculos, restaurantes, comércio, serviços de saúde, tudo o que verdadeiramente mudou no país e aquilo que verdadeiramente traduz os hábitos de consumo numa sociedade moderna.
Foi na classe média — de professores, médicos, funcionários públicos, economistas, pequenos e médios empresários, jornalistas, artistas, músicos, dançarinos, advogados, polícias, etc. —, que a austeridade cravou o seu mais afiado e longo punhal.
E com a morte da classe média morre também a economia e o próprio país.
E morre porque era esta classe média que mais consumia — e que mais estimulava — os produtos culturais nacionais, da literatura à dança, dos jornais às revistas, da música a outro tipo de espetáculos e de manifestações culturais.
É por isso que a cultura está a morrer neste país, juntamente com a economia.
E se a economia pode ainda recuperar lentamente, já a cultura que desaparece não volta mais.
Um país sem economia é um sítio.
Um país sem cultura não existe.


 


Durante a II Guerra Mundial, quando o esforço militar consumia todos os recursos das ilhas britânicas, foi sugerido ao primeiro-ministro Winston Churchill que cortasse nas verbas da cultura. O homem que conduziu a Inglaterra à vitória sobre a Alemanha recusou perentoriamente. “Se cortamos na cultura, estamos a fazer esta guerra para qué?”
 
Mutatis mutandis, a mesma pergunta poderíamos fazer hoje: se retiramos todas as verbas para a cultura, estamos a fazer este ajustamento em nome de quê?
Mas esta, claro, é uma questão que nunca se colocará às brilhantes cabeças que nos governam.


Nicolau Santos - Expresso - 8 de Junho de 2013.