A propósito do Centro de Estudos de Arquitectura Militar de AlmeidaA Porta Exterior de Santo António foi recentemente alvo de adaptação do seu espaço para a criação de um Centro de Estudos de Arquitectura Militar, denominado de CEAMA. De lamentar que tenha demorado tanto tempo a ser implementado, pois já as conclusões do I Simpósio Internacional de Arquitectura Militar Abaluartada, realizado em Almeida em 1989 (ver fotos), apontavam para a criação de um Centro onde se pudesse estudar e dinamizar essa área específica do saber…
Reconhecendo que mais vale tarde do que nunca, não queria, no entanto, deixar de registar alguns reparos que penso pertinentes, resultantes das obras de adaptação, de forma a prevenir a persistência de erros em intervenções no património histórico de Almeida.

Aparentemente, o mais gritante são as pirâmides de vidro e aço implantadas no exterior da Porta, assentes sobre o lajeado granítico que foi construído à prova de bomba. Como se vê, as ditas pirâmides não podem deixar de ficar mesmo integradas com a robustez do granito, pois a sua fragilidade, apesar de à prova do bom senso, não o é à prova de bomba…
Mas continuando…O piso no interior

da porta, foi substituído por seixos rolados escuros, possivelmente do Rio Côa, argamassados com cimento, quando se sabe que, no original, a calçada era de quartzo leitoso e não tinha qualquer tipo de argamassa.
…O piso lateral, constituído por blocos graníticos com desgaste e patina seculares, foi agora revestido com placas alisadas de granito, contrastando uma vez mais, com o aspecto vetusto do conjunto.
…As maciças portas de carvalho

também bem antigas, foram simplesmente serradas, aplicando roletes não devidamente enquadrados e aberrantes: as portas eram sólidas e fechadas, e não arregaçadas, pois desse modo não seriam à prova de tiro de arcabuz, como originalmente construídas.
… A canalização de esgoto aplicada em plástico colorido destoa no antigo rasgo construído para efeitos de esgoto do lado de fora das Portas. Sendo anacrónica, não custava muito

disfarçá-la melhor.
Mas há mais: não houve cuidado em preservar na Praça talvez o único indício visível da ocupação pelas forças francesas, já que o presumível graffiti / gravação sulcada na pedra deixado pelas tropas napoleónicas (ver fotos antiga e actual) que existia no interior da Porta, foi simplesmente apagado por jacto de areia destruidor, tendo a quase totalidade dos pormenores irremediavelmente desaparecido.
… E, como ficou evidenciado na

inauguração realizada em Agosto de 2007, foi pena terem-se esquecido da função de um algeroz de esgoto de águas pluviais o que como documenta a foto, com uma chuvada imprevista… inundou o interior da Porta, obrigando os convidados a deslocarem-se aos pulinhos e em bicos de pés. Logo na inauguração! Mas, por incrível que pareça, o erro perdura até hoje… no mesmo ponto, como se não fossem cair mais chuvadas!
Tendo em conta uma intervenção tão pontual, e com gastos de dinheiro

alegadamente para valorizar o património, é de lastimar a falta de sensibilidade e cuidado nesta multiplicidade de pormenores - caracterizadores da abordagem feita.
Assim, aos poucos, vai a praça-forte de Almeida sendo desvirtuada da sua singularidade, perdendo a sua vetustez, ao sabor de intervenções pouco consentâneas com a sua histórica e patrimonial valia, que é - não nos esqueçamos-
TODO O SEU CONJUNTO. Intervenções estas que vão sendo sempre decididas à revelia dos almeidenses e sem uma abordagem multidisciplinar que pudesse efectivamente contribuir com o mínimo de ponderação e conhecimento para a preservação e revalorização do património histórico da Praça-forte de Almeida, que, a despeito da possibilidade ou não de classificação pela UNESCO, assim vai ficando cada vez mais empobrecida, incaracterística e vulgar.
Por isso, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, além de um direito e dever de cidadania, registo estes reparos, em nome de uma capacidade cívica, interventora, tão diferente do “deixa andar” e, porque não dizê-lo, numa expressão de contestação, que julgo partilhada por muitos cidadãos de Almeida e do país, para um acto de afirmação:
NÃO À CONTINUAÇÃO DESTE TIPO DE INTERVENÇÃO NO NOSSO PATRIMÓNIO!.
Rui Brito da Fonseca