28 novembro, 2010

CASA ONDE NÃO HÁ PÃO...

Observar a realidade à nossa volta, faz-nos lembrar o adágio "Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". Igualmente se poderia aplicar o dito da sabedoria popular de que "é muito fácil fazer festas com o dinheiro dos outros". Na verdade, gerir bens públicos que são confiados a gestores, sejam eles profissionais, ou políticos a quem se dá o voto de confiança é um exercício que requer não só competência mínima, mas bom senso e seriedade, muita seriedade. O gestor público, governante por inerência, ao fim e ao cabo aquele que vai dispor do nosso dinheiro, devia pautar-se por uma conduta essencial: gerir, gastar, aplicar ou investir os dinheiros que lhe estão confiados com o mesmo rigor que uma boa dona de casa, que se preze de o ser, o faz.


Vêm estas considerações, como toda gente facilmente conclui, a propósito de abordar também de forma simples, mas não menos verdadeira, a situação em que se encontram a economia, e especificamente as contas públicas em Portugal. Anos e anos de frenesim despesista a nível central e local, sem a consciência que esse gastar desenfreado correspondia não a reservas de dinheiros acumulados ou provenientes de rendimentos da indústria, comércio e serviços, ou seja de factores geradores da riqueza nacional, mas sim, na sua grande maioria, resultantes de dinheiros atribuídos e empréstimos - estes nunca dados pelos lindos olhos e ainda provocadores de dívidas a que são acrescidos juros. É assim como apenas se ganhar 10 e gastar 15 e continuar a pedir emprestado ao vizinho, ignorando a dificuldade de pagar essas dívidas, porque o que é produzido nunca será suficiente para saldar o empréstimo.

E nós inconscientes e irresponsáveis fazendo de conta que acreditamos nesse tipo de “desenvolvimento” e que “alguém”, que não nós, haveria de pagar a factura… propagandeando palavras que todos gostam de ouvir, mas que não passam de demagogia. Solidariedade em termos de mercado? Não é ingénuo quem assim pensa ou argumenta, mas mais provavelmente irresponsável e desonesto. Quem deixa uma situação destas chegar ao ponto de descalabro total nas finanças e no arrastar da economia para uma tão grave situação de inconsistência, seja a âmbito doméstico, autárquico ou governativo a nível nacional, deveria ser corrido por incompetência e responder, quando se trate de cargo público, criminalmente por incúria na gestão dos dinheiros que lhe estavam confiados.


Mas todos nós temos um quinhão de responsabilidade também, pois se fomos enganados pelos profissionais da política, o bom senso (algumas vozes avisadoras, fizeram-no atempadamente, mas foram muitas vezes apelidados de arautos da desgraça) devia alertar-nos para os riscos que se corria. Mas não. Continuamos a votar confiadamente, neles. É certo que muitas vezes com o argumento de que venha o diabo e escolha, mas sem sermos mais exigentes e tentarmos mostrar o nosso desagrado, dizendo: Não e Basta! Fomos andando nesse doce embalo do deixa-andar, do enquanto o pau vai e vem folgam as costas e outros estribilhos justificativos e provocadores na nossa agradável, inconsciente e confortável, cegueira.


E bem que nos tentam impingir que a culpa é dos mercados e da conjuntura de crise. Quais mercados, qual carapuça! Os mercados são feitos por homens que a maior parte das vezes, actuam sem escrúpulos, emprestando dinheiro a quem muito bem sabem que não pode pagar, continuando nessa vil manha do cambo porque, sobretudo em matéria de dinheiros públicos, alguém que venha atrás que feche a porta. E agora? Agora, é claro, dizem os mercados que o que foi emprestado tem de ser pago. E os desperdícios e uma grande parte dos “investimentos” revelam-se finalmente oportunidades perdidas de desenvolvimento, como sempre foram, aliás. Há, exigem os mercados, que fazer sacrifícios, baixar os vencimentos, cortar com despesas, trabalhar mais, pagar mais impostos para que esse dinheiro possa pagar a dívida maliciosamente provocada, mantendo-nos no engodo com discursos pesarosos e preocupados. Isto, perante as dívidas acrescidas de juros sobre juros, desperdício em cima de desperdício…


A situação apresenta-se tão má que muitos adivinham já um terramoto social não provavelmente sem tumultos civis, em perspectivas que chocam profundamente com a paz podre que se vive, à espera que o pior não venha. Por este estado a que se chegou, penso que os políticos que conhecemos e que têm (des)governado o país não servem. Haverá que procurar entre gente séria - que certamente há - pessoas que pareçam e sejam honestas de verdade. A sociedade e as novas gerações precisam de novos valores que enformem a solidariedade, a democracia, mas também a responsabilidade, a honestidade do trabalho, a condução de uma vida mais sustentável e com mais dignidade para todos. Em suma: se são eleitos para nos representarem, em muita pouca conta nos temos se continuarmos a permitir que nos rebaixem e sujeitem com todas as alarvidades a que os próprios e seus protegidos se habituaram. Chega de farsa!

Rui Brito Fonseca

8 comentários:

  1. José Augusto Marques28 de novembro de 2010 17:56

    Não posso estar mais de acordo, Dr. Rui Brito.
    O grande problema é que enquanto alguns foram avisando da chegada da desgraça, outros ficaram surdos e mudos com promessas "celestiais".
    Passado tão pouco tempo após as eleições, os arautos faustosos, começam eles próprios a pisar terrenos perigosos. Para eles e para nós. Mas como já o tinha afirmado em tempos, vai haver muita gente que tem que pagar esses descalabros e sentirá na sua própria pele o rigor das palavras ditas com elitismo.
    A democracia é feita destas ambiguidades. Quando hoje falamos no grande fosso existente entre ricos e pobres, não devemos esquecer que é esta gente que ao deixar-se trambicar, cada vez mais se afunda social, política e económicamente contribuindo assim para o país que hoje temos.
    Não deixa de ser bom que cada um pague a sua factura. Assim, talvez o futuro possa ser mais promissor.

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  2. Ao vermos diáriamente a televisão, os jornais ou a rádio, vamos verificando o aumento da desgraça que é como quem diz o aumento dos miseráveis. Sim, cada dia há mais pobres, mais pessoas a viver da ajuda comunitária o que quer dizer que cada vez a diferença entre pobres e ricos é maior. Pobres somos nós os votantes. Ricos são eles os eleitos e as suas famílias. Os próximos tempos ainda vão ser piores. Como diz o senhor doutor Rui - muitos adivinham já um terramoto social não provavelmente sem tumultos civis. Talvez só com uma atitude destas se possa repor a democracia neste pobre país.

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  3. ..bem digam-me.. e se o estado social em que vivemos ( estado providência ) simplesmente não é sustentável... a quem vão culpar ? aos tipos do dinheiro que não nos querem sustentar... aos politicos... ao fantasma do natal passado ?

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  4. No Diário de Coimbra de hoje ,Segunda-Feira, 6 de Dezembro 2010, pode ler-se o seguinte…

    “…Falta de transparência nos sites das Câmaras Municipais.

    Análise da Universidade de Coimbra encontrou várias debilidades
    Um estudo da Universidade de Coimbra, que analisou as páginas Internet de 100 autarquias da região Centro, conclui pela falta de transparência, limitativa do acesso dos cidadãos à informação disponibilizada. O estudo, intitulado “Transparência nas Câmaras Municipais Portuguesas: informação divulgada nos sítios da Região Centro foi ontem apresentado no fórum Portugal 2.0 Camp, no Museu do Oriente em Lisboa.
    Aponta «debilidades» à presença das autarquias locais na Internet, «com lacunas ao nível da informação prestada aos cidadãos e também na utilização das ferramentas de promoção da transparência nas instituições públicas», refere uma nota dos promotores do evento.
    Elaborado pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, tendo como referência os oito princípios para Dados Abertos do Governo (Open Government Data) e o Portal dos Contratos Públicos (BASE), o estudo conclui por uma «divulgação parcial da informação» nos sítios web municipais.
    A informação, acrescenta, «é apresentada de forma integrada em documentos de grande dimensão dificultando assim a sua identificação no sítio».
    Por outro lado, face à escassez da informação disponibilizada, os cidadãos vêem limitada a sua capacidade de avaliar «onde e de que forma» foram aplicados os recursos colocados à disposição da sua Câmara Municipal «e de responsabilizar (politicamente) os agentes públicos envolvidos», sustenta.
    «Mesmo quando a informação é efectivamente disponibilizada, o facto de não existir uma área no sítio, claramente definida, identificada e indexada, torna muito difícil encontrá-la», refere outra das conclusões do trabalho…”


    Já o Jornal “I” publica também hoje, num artigo de Rosa Ramos e Filipa Martins…

    “O governo e as freguesias chegaram a uma "plataforma de entendimento" sobre as novas competências das juntas. E o secretário de Estado da Administração Local já garantiu, no seu site, que "até à Primavera" será iniciado um debate sobre a "reorganização e o redimensionamento das autarquias locais, municípios e freguesias...

    …Já o especialista em poder local António Meirinho defende a diminuição do número de autarquias e que se avance com um sistema de governos maioritários nas câmaras, com "implicações na redução das estruturas das assembleias municipais e também nas estruturas de apoio das autarquias, que não precisam de ter tantos vereadores", defende. A reforma das autarquias locais, com a possível extinção de municípios e de freguesias, é admitida pelo governo desde 2005. Nas últimas eleições, foram eleitos para as câmaras 308 presidentes, 1770 vereadores, 6946 elementos para as assembleias municipais e 4259 presidentes de juntas…”
    Segunda-feira,2010/12/06


    Há largos meses que venho alertando para as enormes dificuldades que se vislumbram no curto e médio prazo.
    Lamentavelmente e olhando ao meu redor não me parece que haja muita preocupação e/ou cautela…ou será que estarei enganado e o nosso Concelho será um oásis????
    …eu confesso que continuo preocupado em relação à minha vida privada, ao futuro dos meus filhos e do Concelho onde vivo...será que serei o único?...ficaria feliz se estas minhas cautelas não tivessem razão de ser...veremos...

    João Neves

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  5. José Carlos Esteves.6 de dezembro de 2010 18:36

    O Financial Times, jornal inglês com informação de cariz económica, avaliou recentemente o desempenho de 19 ministros das finanças europeus.
    A notícia passaria um pouco despercebida a nós portugueses, não fosse o caso de o nosso ministro das finanças, também ser avaliado por aquele jornal, e ter obtido uma classificação péssima.
    A mesma avaliação efectuada no ano passado, coloca o ministro português em 15º lugar. Este ano (porque terá sido?) baixou um lugar. Ficou em 16º.
    Teremos que pedir ao jornal inglês que pare com as avaliações ou caso contrário no próximo ano ainda baixa mais um ou dois lugares.

    De acordo com o mesmo jornal, o ministro das finanças mais bem classificado foi o da Alemanha, seguindo-se o da Polónia, França, Suécia, Finlândia, Reino Unido, Bélgica, Grécia, Luxemburgo, Eslováquia, Holanda, Rep. Checa, Áustria, Itália e Dinamarca.
    Abaixo do português ficaram os ministros das finanças da Hungria, Espanha e Irlanda.

    Curioso nesta análise é o facto de o ministro Grego aparecer em oitavo lugar, apesar da situação financeira em que aquele país se encontra. Mas considerando a qualidade do jornal que elaborou a classificação, coloco completamente de fora qualquer análise menos aprofundada.

    De salientar também que só 19 ministros entraram na avaliação.
    Será que se fossem mais, seria ainda mais baixa a classificação portuguesa?

    Poderá estar aqui a explicação do porquê da situação que vivemos neste momento em Portugal, na vertente sócio económica.

    Será que algum dia iremos ter um trabalho semelhante relativamente ao poder local? Bem se precisava.

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  6. ...nada como recordar Eduardo Prado Coelho e o seu último artigo no Público:

    Precisa-se de matéria-prima para construir um País

    A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como
    Cavaco, Durão e Guterres.
    Agora dizemos que Sócrates não serve.
    O que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
    Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
    O problema está em nós. Nós como povo.

    Nós como matéria-prima de um país.
    Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
    Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

    Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão
    ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal deixando-se os demais onde estão.
    Pertenço ao país onde as empresas privadas são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudoo que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ....e para eles mesmos.
    Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
    Pertenço a um país:
    - Onde a falta de pontualidade é um hábito;
    - Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
    - Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo
    nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
    - Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
    - Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
    - Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar
    projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe
    média e beneficiar alguns.
    Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
    podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
    - Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma
    criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
    - Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
    - Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a
    criticar os nossos governantes.
    - Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates,
    melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um
    guarda de trânsito para não ser multado.
    - Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como
    português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que
    confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
    Não. Não. Não. Já basta.
    (Continua...)

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  7. Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta
    muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
    Esses defeitos, essa "chico-espertice portuguesa" congénita, essa
    desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós,
    eleitos por nós. Nascidos aqui, não noutra parte...
    Fico triste.
    Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
    E não poderá fazer nada...
    Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
    Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve
    Sócrates e nem servirá o que vier.
    Qual é a alternativa?
    Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a
    força e por meio do terror?
    Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a
    surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os
    lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!
    É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone
    começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento
    como Nação, então tudo muda...
    Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam
    um Messias.
    Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
    Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
    Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
    Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,
    francamente, tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.
    Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
    Sim, decidi procurar o responsável e estou seguro de que o encontrarei Quando me olhar ao espelho.
    Aí está. Não preciso de procurá-lo noutro lado.
    Eduardo Prado Coelho.

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  8. Será possível alguém explicar o porquê da forma como este ano a Câmara decidiu celebrar o Natal com as crianças das escolas?

    Poder-se-á aqui aplicar a expressão do Dr. Rui,"onde não há pão...". Prefiro dizer antes, que é uma vergonha. Ainda falam mal do Governo do país? Olhem então para a gestão deste concelho.

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