1) Há bem pouco tempo, antes do aparecimento deste blogue, os temas relacionados com o Património eram apenas aflorados pela generalidade dos almeidenses nas esquinas, em voz baixa, com indignação recalcada, ou apenas com a resignação de quem normalmente se sentia impotente para se pronunciar sobre o que quer que fosse que achavam mal, deixando o trabalho de contestação aos “políticos”, se assim o entendessem.
2) O aparecimento e divulgação das novas tecnologias permitiu uma alteração significativa da forma de expressar o parecer de cada um, porque nem que seja a coberto de anonimato, salvaguardadas as elementares regras de decoro, podem exprimir a sua opinião, cientes que sobre eles não recairá nenhuma retaliação, como sucedia antes.
3) Por não constituir qualquer apologia do anonimato, antes uma contingência de um meio pequeno e de cidadãos pouco à vontade, ou que no dia-a-dia sentem represálias pela livre expressão do seu pensamento, este blogue não tem alternativa para lhes dar voz, mas em contrapartida, parte desta característica fundamental: todas as participações temáticas que introduzem os debates são assinadas pelos seus autores, sem recurso a qualquer nome falso.
4) Quer isto dizer que felizmente os tempos evoluíram, por um lado, mas também que as pessoas que voluntariamente assinam as suas participações dão a cara por aquilo que escrevem, assumindo publicamente as suas posições – sem medo de serem rotuladas por chicanas que defendem interesses contrários aos deste espaço de debate, ou de serem contestadas por falta de veracidade naquilo que publicam.
Assim, e a talhe de foice de alguns comentários menos informados, mais indignados, ou melhor intencionados, estes defendendo o diálogo com o poder autárquico, torna-se pertinente esclarecer o seguinte:
- Antes de bater a porta na colaboração com este executivo, também eu acreditei que o seu presidente era uma pessoa experiente, pelo seu trabalho autárquico como vereador durante 12 anos, além de outros como presidente de Junta de Freguesia; também eu pensei que era uma pessoa seriamente preocupada com o futuro dos seus concidadãos, tomando algumas atitudes excessivamente exaltadas como frontalidade e coragem, sinais de determinação e vontade de concretização dos projectos em que acreditava.
E não me enganei. Pelo menos totalmente. De facto, é uma questão de registo (o excesso de voluntarismo conduz geralmente a problemas de autismo) e de perspectiva: diversas vezes reconheci publicamente o mérito deste executivo em procurar criar condições de dinamismo cultural, embora, confesso, me desiludisse que começasse a torná-lo mero folclore, sem capacidade de perspectivar, a par disso, outras preocupações mais fundas e a longo prazo. Liderar para a satisfação imediata pode ser um acto de inteligência para sobrevivência no poder, mas é também uma de falta de visão estratégica e consequente. Pior do que isso, deixar-se ficar refém de técnicos contratados para “fazer obra” e usar dinheiros comunitários, sem querer sequer escutar verdadeiramente a opinião de outros munícipes ou técnicos, invocando uma teoria de “macacos e galhos” para se justificar nas competências de quem contrata, é um sinal demolidor de credibilidade. Três vezes (3!) me esforcei por ter um diálogo sereno e cara a cara, com este executivo, além de outras vezes, por escrito e à distância, para tentar resolver a bem um insulto público desrespeitador da divergência de opinião. A reacção tardia e meramente descartadora não foi mais do que uma cobertura para atitudes arrogantes, às quais se colou indelevelmente, vindo também a encarnar atitudes muito semelhantes, como se viu nos recentes workshops.
Contudo, não se pense que a verdade dos factos se resume a isto: outra resposta a uma reacção de protesto pelo desaforo de sucessivos atropelos relativamente a convidados e recriadores já na Recriação Histórica e respectivas Jornadas de 2007, onde como mentora e dinamizadora inicial das mesmas, confessava que “tinha vindo a Almeida para sofrer, só não sabia é que ia doer tanto” veio, por sua vez assinada pelo Vice-Presidente do Executivo, vereador de Cultura, a quem também se entregavam os louros de qualquer êxito das iniciativas, sintetizada em apenas dois provérbios, via mail (lamento, se desiludo os admiradores):
- “Mais vale mágoa no coração, que vergonha na cara!”
e
- “Nos milheirais comem os pardais”
Como não preferi a vergonha de pactuar com o que estava fora das nossas concordâncias, nem estava disposta a “comer nesses milheirais”, mantive-me fora. Mais tarde, bastante mais tarde, completamente afastada da colaboração com Almeida, e antes de qualquer participação neste blogue, prova de que o regime que aqui vigora é “quem não é por mim é contra mim”, recebi uma carta assinada pelo Presidente, acusando-me, bem como a toda a minha família chegada, de “boicote”…
- Pasme-se!!! Todos a torcermos por Almeida, colaborando até ao limite das nossas disponibilidade e boa fé - e ainda levamos com desconsiderações e desconfianças destas! Boicote… apenas porque tivemos a lisura de não escamotear as nossas discordâncias junto de quem acreditávamos ter o dever de as escutar e procurar ouvir outras opiniões para melhor decidir??? E como se não bastasse, ainda declarando ter-se imposto a si mesmo “um período de reflexão”. Período de reflexão que só pode ter gasto, não no silêncio da sua consciência, mas na companhia da sua trupe de toupeiras, procurando em vão desenterrar quaisquer “acusações falsas” – sem conseguir fundamentar um único argumento!
Na altura, levou nova resposta escrita, que obviamente não serviu de nada, já que ficou no segredo do Olimpo. Um Olimpo onde os deuses continuam a planear levar por diante mais “investimentos”, simpósios, projectos escultóricos baptizando-os de “arte popular”, para impingirem mais obras, obras como aquelas que vão conseguindo aprovar com manobras de braço enfiado no IGESPAR de Lisboa, ou batendo com pé no chão para vencer as resistências da Delegação Regional de Cultura, contra a vontade da população, contra o parecer e recomendação de outros técnicos, como o Arq. Perbellini da Europa Nostra, do Dr. Ray Bondin, membro do ICOMOS…esse, azar no discurso que trouxe, amigo do arq. João Campos, começando por elogiá-lo, sem saber o que ia verdadeiramente encontrar no terreno e acabando, sem querer, por pôr o dedo na ferida de Almeida. (Sobre tudo isto, voltaremos com mais notícias, oportunamente!)
Por isso, e porque o debate não se pode efectuar com marginalização dos almeidenses, nem com o escamotear da verdade, escolhemos este fórum para, responsavelmente, todos podermos exprimir as nossas opiniões. Não, não se trata de vinganças nem politiquices: como se pode ver, até aqui TODAS AS TENTATIVAS DE DIÁLOGO SAIRAM GORADAS. Sobrou apenas este espaço, que irrita muita gente, certamente, mas cuja intenção, à falta de melhor, é que haja participação de consciências livres e verdadeiramente democráticas sobre o futuro de Almeida.
Enquanto isso, e evidência do que aqui é muitas vezes afirmado, podemos todos ir-nos preparando, porque apesar de toda a contestação, a probabilidade de as obras se efectuarem, se tornará uma certeza! Porque a máxima é “só não é polémico quem não faz nada e pelo menos eu faço”. É tarde demais para recuar: investido tanto espalhafato, tanto alarde com peritos, mesmo que estes até nem fossem ou se viessem a revelar tão competentes como isso, não importa! Os ovos foram todos postos nesse cesto. O cesto que é oferecido aos almeidenses com promessas de um pão-de-ló para o seu desenvolvimento. E os ovos, mesmo que já cheiram mal, não se podem deitar fora e voltar atrás…
E tais ovos de tão podres e inchados de contentamento por esta enorme confiança de um executivo de uma pobre autarquia desertificada, até já saltam do cesto, em gestos de grande audácia, ameaçando atirar-se a quem lhes fizer frente: aconteceu nos workshops, acontecera antes, e tornará a acontecer. Ainda recentemente, por ocasião, da visita da Secretária de Estado da Cultura, houve mais evidências desse descaramento.
Mas não nos indignemos: está a ser fabricado um pão-de-ló em forma de estrela, que será posto numa travessa bem comprida, com um cravo cheio de repuxos para não murchar o espírito do 25 de Abril em Almeida. No meio, um exemplar da tal “arte popular” que pode ser por todos admirada: 24 calhaus + 1 de metal, que ainda falta. Tudo para que os almeidenses “sejam muito felizes”… sobretudo aqueles que ainda há pouco eram desdenhosamente apelidados de “abrileiros” por, na melhor das intenções, sonharem com um monumento comemorativo dessa efeméride!
- Que sorte a nossa!
Maria Clarinda Moreira