28 novembro, 2015

Não lhes perdoo!!!





Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela a que este país sofreu desde 2011.
Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.

Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.

Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha". Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.

Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância da sua capacidade reivindicativa de reação ser muito menor dos que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas. Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à provincia de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência.

Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos. Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro".

Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo".

Assisti a isto e a muito mais. Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Públuca foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as políticas que aviltavam a máquina pública.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, assisti a uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa. Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão.

Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos. E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que tristemente lhes coube titular durante este triste quadriénio.

Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo. Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem? Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar. Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus. Como não sou, deixo-lhe apenas o meu silêncio.

 Francisco Seixas da Costa

































31 outubro, 2015

Desumanização do homem



Acordo sempre bem cedo e, por força da necessidade de me ver integrada ao mundo em que vivo, ligo a tv e abro o notebook, enquanto a água ferve para o café da manhã:

“Milhares de crianças na Nigéria foram mortas, raptadas ou expostas a violência inimaginável (nota da Unicef).” Mudo de site: “Mulher tem os olhos perfurados pelo marido durante discussão do casal”. Outro site notícia: “Adolescente é apedrejado por populares após ser pego ao tentar furtar um  aparelho celular”. Abro o Facebook: “Carta aberta de Mia Couto ao Presidente da África do Sul sobre o genocídio de moçambicanos naquele país”. Na tv: “Naufrágio no mediterrâneo pode ter causado centenas de mortes de imigrantes”.


Ainda sem conseguir mensurar a quantidade de dor a que fui exposta logo no início do dia, resolvo, já com olhos embaçados e voz embargada, comprar o meu pão. A caminho da padaria, deparo-me com uma senhora que dorme na calçada abraçada a uma criança, ambas cobertas por um imundo cobertor. 

Como se não bastasse a cena em si, um senhor bem vestido e seguramente muito apressado quase nelas tropeça e reverbera: “Desgraça! Trabalhar não quer, não… Fica aí entulhando a rua”.
Perco o chão e me sinto petrificada ao observar, na gravidade de tudo o que vi nos noticiários e agora bem diante de mim, naquela cena, o paradoxo de viver, na era áurea dos direitos, a flagrante desumanização do humano.

Tratados e Acordos Internacionais estabelecem que dados direitos são preciosidades inalienáveis de cada um dos humanos. O Direito Constitucional de cada Estado traz ao seu ordenamento interno garantias a esses direitos que são diretamente ligados aos ditos “direitos naturais”, compreendendo o direito à vida, à integridade física, ao respeito à dignidade de cada ser humano.

Mas a sociedade, que bem sabe evocar as leis quando é colocado em xeque algum de seus direitos patrimoniais, vale-se de um mecanismo muito sutil para mentalmente subverter os valores que ela própria instituiu. Ela hierarquiza os seres humanos valendo-se de indicadores diversos, mas preponderantemente econômicos, de modo que quanto mais alto alguém esteja na dita “pirâmide social”, mais humano ele seja e o quanto mais baixo estiver, menos humano ele é. Ocorre, então, a desumanização do humano.

E, se não é humano, é considerado indigno de ser protegido pelos direitos inerentes à nossa espécie, momento em que tantos enxergam como legítimos atos de absoluta barbárie.

Esse método já é antigo. Europeus, em pleno “século das luzes”, equipararam indígenas americanos a animais, dizimando-os. Equipararam também a animais ou a “coisas” os africanos, escravizando-os.
Na tentativa de legitimar toda a sorte de maus tratos à mulher, religiosos, na Idade Média, travaram severas discussões: a mulher teria ou não teria uma alma?

Para algumas religiões, aqueles que professam a sua fé são filhos, os demais, meras criaturas de Deus. Ora, se não são filhos de Deus, se não possuem filiação e proteção divinas, caso recusem a fé que tanto estimam são hostilizados e havidos como inferiores. Por vezes a inferioridade é tamanha que as suas existências ofendem os “santos corações religiosos”, que reagem com torturas e homicídios. Quem não leu sobre as cruzadas, as inquisições e tantas outras de mortes por motivação religiosa no curso da História e na atualidade?

É na desumanização do homem que se apoia o genocídio, tanto no passado quanto nos dias de hoje. 

Na visão fanática que deu ao nazismo contornos similares ao fanatismo religioso, os judeus nada mais eram que porcos a serem sangrados para a higienização do planeta; e assim o fizeram com esmerado sadismo, legando à humanidade a vergonha do holocausto.


É fácil perceber as incongruências históricas no tocante ao desrespeito aos Direitos Humanos e, não raro, envergonhamo-nos de nossos antepassados. Contudo, devemos estar atentos, pois raro, sim, é a sociedade conseguir enxergar as mazelas do seu próprio tempo.

Contudo, devemos estar atentos, pois raro, sim, é a sociedade conseguir enxergar as mazelas do seu próprio tempo.

Hoje, a passividade com que vemos a segregação dos negros, a discriminação dos pobres, o desprezo aos imigrantes, a demonização do infrator, a subjugação da mulher, a estigmatização de homossexuais, o desrespeito às comunidades indígenas e a perseguição de religiões e cultos diversos (no Brasil, especialmente às religiões de origem africana)  condena-nos a todos.

Aquele que se conforma com a injustiça é tão injusto quanto aquele que a pratica. 
Somos coautores da miséria moral de um tempo onde o sangue francês vale lágrimas e comoção de todo o mundo (e vale mesmo), enquanto o sangue de centenas de africanos se derrama anônimo, embora o derramamento se dê pela mesma motivação religiosa e sob o mesmo discurso de desumanização.

Ontem, ao ler os comentários acerca da xenofobia e do genocídio que vitimam moçambicanos na África do Sul, uma adolescente moçambicana comentou: “o nosso único pecado é sermos miseráveis”. Sim, ela entendeu o mecanismo: desumanizamos o pobre culpando-o por sua pobreza. 



Na visão doentia de muitos, ele é um estorvo. Um nada. “É um entulho na calçada do mundo”, diria o moço apressado que  quase tropeçou na senhora e na criança que dormiam na rua.
Sim, é nesses pobres a quem desumanizamos que tropeça a hipocrisia de uma pseudocivilização de Direitos. É neles que tropeça a religiosidade ociosa e o fanatismo sádico. Neles tropeça a nossa política não inclusiva e o nosso capitalismo: sempre cego a quem não lhe  mostrar os cifrões.



É junto a esses pobres mendigos a quem roubamos o direito de ser gente que se entulham também o humano que somos e a consciência que renegamos.


Texto de Nara Rúbia Ribeiro

Originalmente publicada no site Conti outra





24 outubro, 2015

Europeísmo ou Euroceticismo do CDS-PP




No início da década de 1990, o CDS-PP era “carinhosamente” apelidado de “partido do táxi”, pelo facto de ter apenas quatro deputados (e que, portanto, se conseguiam deslocar à Assembleia da República dividindo apenas um táxi). 
No meio da crise de resultados do CDS, foi Manuel Monteiro, de apenas 29 anos e apadrinhado pelo ex-presidente centrista Adriano Moreira, a subir à liderança do partido em 1992 e a marcar imediatamente uma mudança de estilo. 
O antigo líder da Juventude Popular entra em ruptura com as gerações anteriores do partido, corta com o CDS democrata-cristão de Freitas do Amaral, marca essa cisão ao acrescentar ao nome fundador — Centro Democrático e Social — o sufixo PP, manifesta-se frontalmente contra o federalismo e o Tratado da União Europeia (Tratado de Maastricht), faz com que o CDS saia da família política europeia do PPE e consegue 15 deputados nas eleições de 1995.
Ao mesmo tempo, Paulo Portas ocupava-se à crítica sem tréguas da esquerda e da direita, enquanto fundador e editor de O Independente, semanário de referência de direita anti-cavaquista. 
Portas, que apoiou desde o início a ascensão de Monteiro, era visto como um notável estratega político e escritor talentoso, e usou várias vezes a qualidade da sua escrita em textos eurocépticos e em defesa de um referendo ao Tratado de Maastricht. 
Na sua coluna Antes pelo contrário, o jornalista manifesta o seu desagrado perante a inevitabilidade da união política entre os Estados-membros da então Comunidade Económica Europeia (CEE). Por exemplo, num artigo de 28 de Maio de 1988, o futuro vice-primeiro-ministro alertava para a marginalização de Portugal no contexto de uma união política europeia, lembrando a vocação atlântica dos “descobridores” e a antiguidade das fronteiras nacionais. Portas não rejeita a CEE, que vê como oportunidade de liberalização da economia, mas sim o europeísmo que implica “abdicar da independência tal e qual a conhecemos”.

A 29 de Maio de 1992 lamentava que “não há nação europeia, nem nunca haverá”, e deixa sempre que pode o alerta da “germanização da Europa”, que descambará numa “crise social sem precedentes”. Portas acabará por abandonar O Independente no Verão de 1995 e juntar-se ao CDS, para concorrer pelo círculo de Aveiro nas eleições legislativas ganhas por António Guterres.

Paulo Portas, com uma enorme reputação adquirida dos anos de jornalista, disputa a liderança do CDS-PP em 1998, que ganha frente a Maria José Nogueira Pinto. Propõe uma lenta reconciliação dentro do partido, regressando ao modelo da democracia-cristã e enevoando a posição eurocéptica do PP. Em 2002, com a vitória de Durão Barroso nas legislativas, o PSD coliga-se com o CDS, que deixa finalmente cair, sem reservas, o “eurocepticismo”.


...vamos falar claro de uma vez para sempre ou...teremos que aturar esta figura durante muito mais tempo...




28 agosto, 2015

Porque os chefes do governo mentem?



Perder a democracia em nome das boas maneiras?

O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho dá uma entrevista e, ostentando o olhar mais cândido que consegue, mente sobre uma questão fundamental – os dados do desemprego – para tentar convencer os portugueses de que as coisas estão no bom caminho, de que a economia está a recuperar, de que a austeridade funcionou e de que o seu governo merece ser reeleito em Outubro.
O irrevogável vice-primeiro-ministro Paulo Portas repete a mesma mentira em todos os púlpitos da pré-campanha que encontra pela frente, mas com um dedo esticado de autoridade e a voz pausada que Portas sabe que se podem fazer passar por gravitas e com os fatos de bom corte que Portas sabe que se podem fazer passar por seriedade.
Escândalo, porque os chefes do governo mentem? Escândalo porque não se trata apenas de uma declaração que não corresponde à realidade, mas de uma operação de manipulação da opinião pública, com estágios inventados para fingir que milhares de pessoas não estão no desemprego, com milhares de desempregados transformados em não-pessoas para os apagar das listas do desemprego, com os emigrantes varridos para debaixo do tapete? Sim, um pequenino escândalo. Vinte vozes indignadas. Os partidos da oposição, uns quantos investigadores não suspeitos de simpatia pelo governo, umas organizações de esquerda, uns blogs que salvam a honra do convento, um ou outro artigo nos media. Passos Coelho calou-se, envergonhado? Portas desculpou-se? O PSD vem embaraçado corrigir os dados com o argumento de que um súbito golpe de vento baralhou as notas do seu líder? Um frisson no meio político? Não. A mentira será repetida tantas vezes quantas câmaras e quantos microfones forem apontados a Passos Coelho e Portas. A oposição cansa-se. Afinal, já todos sabem que os membros do governo são uns aldrabões, para quê insistir? Os telespectadores não reparam, a mentira fica. Parece que o desemprego está a diminuir. Talvez eu afinal tenha emprego e ainda não tenha dado por isso. Não iam mentir na TV pois não? O governo não ia mentir, ia?
O FMI diz que, a este ritmo, só daqui a vinte anos a emprego atingirá os níveis de 2008? Que vamos precisar de 27 anos para ficarmos de novo na casa da partida? O saltitante Mota Soares explicará, sem pudor, que não se pode dar demasiada importância ao FMI porque está farto de se enganar. O mesmo FMI cuja receita de austeridade o governo seguiu com a obediência de um poodle amestrado, jurando que as suas mezinhas eram bafejadas pelo Espírito Santo? Sim. Mas ninguém perguntou isso ao ministro ou, se perguntou, não apareceu nas televisões, que é o mesmo que não perguntar.

A mentira tornou-se não uma parte integrante do discurso político (sempre o foi), mas o cerne do discurso do poder. Todo o discurso do poder é uma mentira porque se articula em torno de mentiras nunca denunciadas pelo que são. Nunca ninguém dirá em público a Passos Coelho ou a Portas, como alguém disse a Joseph McCarthy, "Será que você não tem um mínimo de decência?"  E nunca ninguém o dirá porque a força capturou a política. O medo capturou a dignidade.


Achamos que é falta de educação dizer a alguém que mentiu mesmo quando essa pessoa mente descaradamente e há milhões que sofrem por isso. E os jornalistas vivem no pavor de ser considerados "parciais", de "ter uma agenda". Não tem importância mostrar Passos Coelho três vezes num telejornal a debitar propaganda, mais dois ministros e dois secretários de Estado, como numa típica ditadura sul-americana (para usar o cliché). Isso não é parcialidade. Preocupar-se com a veracidade dos factos é "ter uma agenda". "Ter a agenda" do governo não é ter uma agenda, é citar fontes institucionais. Denunciar falsidades no discurso do poder passou a ser considerado militância de esquerda. Pode fazer-se às vezes, uma vez. Mas não se pode fazer de cada vez que uma mentira sai da boca de Passos Coelho. Seria impensável, inaceitável, uma perseguição. Por isso, a propaganda ganha sempre. Por isso a democracia perde sempre.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi responsável pelo maior esquema de fuga ao fisco na história da Europa, roubando milhares de milhões de euros aos contribuintes europeus? O presidente do EuroGrupo, Jeroen Dijsselbloem, inclui no seu CV um mestrado inexistente que apagou quando foi descoberto? O FMI sofre de esquizofrenia financeira, impondo à força aos países medidas que condena nos seus documentos internos? Que importa. Pode falar-se nisso uma vez nos jornais, mas insistir seria falta de educação, "ter uma agenda". Dizemo-nos indignados mas não queremos ser considerados indelicados.

Rimbaud perdia a vida por delicadeza. Estaremos dispostos a perder a democracia em nome das boas maneiras?



JOSÉ VÍTOR MALHEIROS - 04/08/2015






19 junho, 2015

Tsunami econômico.



O regresso de Schlieffen


Em 1905, a Alemanha adotou o Plano Schlieffen. 
Dado que a Rússia e a França eram aliadas, para evitar uma guerra em duas frentes, Berlim atacaria primeiro Paris, num golpe fulminante (tentando repetir a vitória rápida de 1870) para se concentrar, depois e com tempo, contra a imensa Rússia. 
Entre 28 de junho e 4 de agosto de 1914, os europeus assistiram ao torneio diplomático que se sucedeu ao atentado de Serajevo. Nas distrações estivais muito poucos perceberam que era a sua sentença de morte que estava a ser traçada nos bastidores diplomáticos. 
A Sérvia estava ainda mais longe em 1914 do que a Grécia em 2015. 
A guerra poderia ter sido evitada? Claro. Bastaria que em vez de aplicar cegamente o Plano Schlieffen o Kaiser Guilherme II tivesse ousado pensar. 
Mas, como disse Keynes, a maioria dos homens prefere errar dentro das regras do que ter sucesso através da coragem de caminhos novos. 
Está a zona euro condenada a implodir? Claro que não. 
Mas, provavelmente, é isso que vai acontecer. 
O novo Plano Schlieffen chama-se Tratado Orçamental e transforma a austeridade em religião. 
A nova rigidez mental está no frívolo ADN de uma união monetária low cost, incapaz de aprender com os seus erros. 
A rigidez está na indiferença moral com os efeitos devastadores da imposição de políticas catastróficas, que se insiste em prolongar. 
Quem espera um milagre acredita que a chanceler Merkel poderá fazer melhor do que Guilherme II. Infelizmente, o colapso da Grécia será, com grande probabilidade, o início tumultuoso do fim do projecto de integração europeia iniciado depois de 1945. Um tsunami económico percorrerá destrutivamente todo o mundo. Como em 1914, ou 1939, também em 2015 o epicentro das ameaças para o equilíbrio e para a paz mundiais está aqui. Na civilizada Europa.

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
*Professor universitário


D.N. - 19/06/2015






16 maio, 2015

Não coma queijo!!



Ideias para comédias



Após ter votado a lei de bases da segurança social, um deputado diz desconhecer as suas obrigações legais para com a segurança social.


Após ter passado anos a dar aulas de catequese, um catequista diz ter ficado com a ideia de que a obediência aos mandamentos era opcional.

Um cidadão passa cinco anos sem descontar para a segurança social. Depois chega a primeiro-ministro e manifesta grande preocupação com a sustentabilidade financeira da segurança social.

Um cidadão passa cinco anos sem tomar banho. Depois fica incomodado quando partilha o elevador com um vizinho que acabou de chegar do ginásio.


Um primeiro-ministro admite que cometeu irregularidades mas justifica-se dizendo que são irregularidades menores do que aquelas que o primeiro-ministro anterior é acusado de ter cometido.

Um aluno falha a entrega dos trabalhos de casa mas justifica-se dizendo que não procedeu tão mal como um aluno que, no ano anterior, tinha roubado a lancheira a outro menino. A professora lembra-lhe que o facto de outros terem cometido infracções maiores não o isenta de uma nota negativa. O aluno, mesmo sendo pequenino, compreende o argumento da professora.

Um primeiro-ministro apercebe-se, em 2012, que deve dinheiro ao Estado, mas acha que é mais oportuno fazer o pagamento apenas no fim do seu mandato, para não criar confusões. Ao mesmo tempo, o seu governo recorre a penhoras automáticas para executar mais rapidamente as dívidas fiscais.

Um verdugo apercebe-se, em 2012, que cometeu um delito parecido com os que são cometidos pelas pessoas que castiga com chibatadas. Passa a dar chibatadas com mais força, para transmitir a ideia de que a sua adesão à prática delituosa não significa que a aprove.

Um primeiro-ministro decide regularizar imediatamente a sua situação fiscal depois de perceber que o jornal Público descobriu aquilo que ele já sabe desde 2012. O ministro da segurança social considera a postura do primeiro-ministro muito digna.


Um criminoso decide confessar um crime cometido dez anos antes, e só depois de terem surgido provas absolutamente claras e indesmentíveis de que o cometeu. O seu advogado considera a postura do cliente muito digna.

Milhares de cidadãos falham o pagamento dos impostos na data estipulada e justificam-se dizendo que o jornal Público não teve a gentileza de os incentivar a saldar a dívida.

Um cidadão acumula dívidas e não recebe a respectiva notificação. O sistema que não o notifica durante cinco anos é o mesmo que não deixa passar cinco dias sem notificar os outros cidadãos devedores. O ministro da segurança social diz que o primeiro-ministro foi vítima de um erro do sistema.

Um cidadão ganha a lotaria. Os seus amigos dizem que foi vítima de um acaso da sorte



RICARDO ARAÚJO PEREIRA – Visão -  12 de Março de 2015





11 maio, 2015

Perceber e amar a diferença





Sou daqueles privilegiados que deu um passo para sair do país antes que o seu primeiro-ministro o aconselhasse a fazer. Sou daqueles que abraçou a palavra emigrante como a opção, carregando o orgulho de ser português noutro(s) país(es). Sou daqueles que tenta valorizar e aplicar no dia a dia os princípios valores e sabedoria que a família me transmitiu. Desde logo o exercício de ‘perceber e amar a diferença’. Um saber genuíno dos ‘simples’ que nos ajuda a ser atentos respeitosos e respeitados.
Vem isto a propósito da recente cobertura feita pelos orgãos de comunicação do meu país sobre as comemorações dos 70 anos da vitória das tropas aliadas na 2ª Grande Guerra Mundial. Todas alinhadas pelo mesma caixa editorial – Putin mostra o seu poderio militar à boa maneira dos tempos da União Soviética e da guerra fria. 
Como sempre a Rússia é o demónio favorito de gente que muito pouco ou nada conhecerá da realidade do país.
Visitei a União Soviética em 1975, em plena era Breznev. Tinha 19 anos e representava o MDP/CDE que integrava a delegação portuguesa no Festival Internacional da Juventude que teve lugar em Baku, Azerbaijão (à altura parte da URSS e hoje estado independente). 
Antes passámos por Moscovo onde fomos recebidos com honras de heróis da liberdade, título que nenhum na comitiva tinha diga-se. O único que assim o podia reclamar era o Adriano Correia de Oliveira, com quem partilhei o quarto ao longo da estadia de 12 dias. 
Com Adriano passei a trazer no coração, a trova do vento que passa. 
Momentos inesquecíveis. Um homem tão grande em tamanho quanto em doçura. Partiu muito cedo.
No encerramento do Festival com ele cantámos a nossa Grândola Vila Morena. 
À Rússia voltei, mais tarde em 1995, já na era Yeltsin. Motivava-me o trabalho e oportunidades de negócio a desenvolver com o país. Desde então, por esta ou aquela razão o destino passou a ser Rússia até inverter os sentidos, isto é, passando a visitar Portugal. 
Assisti à ascensão de Puti (2000) e ao repor do orgulho russo bem como ao ressurgir da Rússia no panorama internacional. 
Da Rússia trago algum conhecimento adquirido. 
Fiz uma aprendizagem que mudou a minha vida. Esta é a realidade. 
Este é o país que jamais me será indiferente.
No mais sincero acto de perceber esta fantástica homenagem aos heróis da 2ª Grande Guerra, estive lá. 


Fui ao epicentro dos festejos junto dos militares que aos milhares desfilaram na Praça Vermelha e do ‘povão’ que expressava o seu obrigado. 
Muitas foram as razões me levaram a dizer estou presente. 

Destaco no entanto duas. O facto de a minha companheira querer homenagear o seu Avô paterno, militar da força aérea morto em combate em 1942 (de lembrar os 27 milhões de russos mortos na guerra equivalendo a 1 morto por cada família de 4 elementos), e pelo significado das comemorações.
As emoções sentidas ontem ficarão como um dos dias mais bonitos que vivi. 
Não vi nem nacionalismo bacoco ou patriotismo de pipocas e coca-cola. 
Vi pessoas agradecidas aos seus mortos e orgulhosas dos seus e da sua história. 
Vi crianças e jovens partilhando a festa. 
Não vi nem senti que por perto houvesse um tal de Estaline, a obrigar as pessoas a serem diferentes.
Se a questão, e voltando à caixa editorial da imprensa portuguesa, reside no facto de as pessoas trazerem a foice e o martelo nas bandeiras, ou as figuras históricas da União Soviética de então, as bandeiras do país, ou até das fotos dos seus mortos, não vejo onde reside o problema. 
Se não gostam, então terão de mudar de ares ou ‘proceder à limpeza’ de S. Petersburgo a Vladivostok de tudo isto que tanto os perturba e incomoda. Digo-vos que terão um trabalho árduo e inacabado. Se a questão é mais primária, de ignorância, traduzido no pensamento pro americano das mentes que os leva a não gostar da Rússia porque não gostam, simplesmente por isso. Não será fashion gostar dos russos. É simples então, a informação não passa de flatulência.
Mas já agora, fiz questão de ler o discurso de Putin para perceber onde se encontram as grandes ameaças ao mundo, bem como, assisti pela televisão à conferência de imprensa conjunta com Merkel, ontem em Moscovo, após colocação das flores no túmulo do soldado desconhecido. 
Das duas intervenções não a identifiquei a ameaça do que fosse. Identifiquei, isso sim, ensinamentos decorrentes do que se tem passado no mundo desde 1945 até hoje. 
Mas se a questão for o poderio militar demonstrado ao mundo e não outro conteúdo terei de acrescentar algo mais à caixa editorial. 

Em armamento militar de todo o tipo os EUA ‘ investem’ por ano mais que a China, Índia e Rússia, juntos. 
A propósito, relembro as duras e incisivas palavras de Álvaro Cunhal, quando numa das suas últimas entrevistas se referiu aos EUA, como o país mais terrorista na história do mundo. Tenho de concordar com ele. A enormidade de golpes de estado, ‘golpinhos’ e ‘golpetas´, o patrocínios de líderes facínoras um pouco por todo o planeta, a ´sponsorização´do extremismo islâmico, a invasão de países pela dita liberdade (deles), os interesses obscuros sobre a capa da democracia de tipo ocidental com assinatura de um modelo a seguir, estão à escolha é para todos os gostos, em catálogo e saldos. 
Deve ter-se a noção do que de 1945 para cá aconteceu no plano internacional. 
Deve-se chamar o nome às coisas.
Se a conclusão, retirada pelos profissionais da comunicação que pululam na malga do poder é, a Rússia tem um exército forte. Estou de acordo. Tem e deve continuar a tê-lo. Não porque entenda que deva seguir o modelo americano mas porque acho que se deve defender dele. É dos livros a intenção dos EUA e NATO em impor um líder amigo um pro americano na Rússia. É o abc da política internacional. Basta ler para perceber o que se passa à volta da fronteira russa. 
Esta americana forma de pensar que todos devemos aceitar os EUA como o bastião da democracia no mundo é parte do golpe. De democracia tem pouco e de conspiração tudo. Assinar um tratado de cooperação com os EUA significa, grosso modo, perda de independência e de pensamento próprio. É o que acontece a todos os denominados aliados dos EUA. É o que tristemente vem acontecendo a esta União Europeia de líderes no ´he’s master voice´ que procuram o melhor retrato com o patrono.
A vida é cheia de exemplos e de simples episódios. 
Vem-me sempre à memória a minha amizade com um cidadão americano que à altura comungava comigo a sua também adaptação à Rússia. O país, as gentes, a barreira da língua, culturas diferentes e tudo mais, levavam Timothy, Tim como o tratava, a vociferar cobras e lagartos sobre este país. 
Um dia, num evento em que juntos participámos, a sua postura era das mais despropositadas e até incómoda, pois estava ‘a jogar fora de casa’ chamando demasiado à atenção. Na minha forma de ser bem humorada, disse-lhe para não ser assim porque Deus o castigava obrigando-o casar como uma cidadã russa. Da gargalhada inicial ao meu comentário ao seu casamento com uma russa, demoraram 3 anos. Hoje divide a vida entre o lá e cá. Feliz como merece e com uma família grande como se orgulha. Satisfeito pela diferença que os juntou. Ao longo do tempo a vida transformou-o. Quando lhe perguntava sobre o que pensava do país, quando veio e agora, respondeu-me de forma objectiva que nenhum americano sabe o que é a Rússia se não viver no país. Bem como o inverso é verdadeiro, sendo extensivo a todos os povos.
Há história cultura e língua diferentes. 
Há riqueza humana feita na diversidade.


Desculpar-me-á o Tio Sam mas o facto de eu não frequentar o Mac Donnalds ou não beber coca-cola não quer dizer que não goste da América e dos americanos.
Não gosto de alguns americanos, de alguns portugueses, de alguns russos, de alguns alemães, e assim por diante. Não confundo a árvore com a floresta.

Podem concluir que gosto da Rússia e até que a defendo. 
Será um facto. 
Talvez porque viva cá e esteja numa realidade bem diferente da ficção jornalística.



Se calhar o meu Tio José Luís Terreiro teve alguma influência quando nos meus 14, 15, 16 anos de idade me levava aos concertos de música clássica de compositores russos, assistir ao bailado russo. 
Terei começado a gostar por aí.

António Sousa